De Caravelas a Caraíva de bicicleta: Costa das Baleias, lama e travessias no sul da Bahia
Nos dias 17 e 18 de maio de 2022, o Projeto Bike-Vela Costa Brasil avançou pelo litoral sul da Bahia, em dois trechos completamente diferentes entre si, mas igualmente exigentes. De um lado, a beleza da Costa das Baleias. Do outro, um dos percursos mais duros da expedição.
17 de maio: de Caravelas a Cumuruxatiba pela Costa das Baleias
Foram 83 km pedalados entre Caravelas e Cumuruxatiba, em um trajeto conhecido como Costa das Baleias. A região recebe esse nome por ser rota das baleias que migram da Antártida e aparecem por ali todos os anos, principalmente no início do segundo semestre.
O percurso exige atenção. Predominam estradas de terra, com muitas subidas, descidas, ondulações e buracos. Não é um trecho de velocidade, é de resistência.
No caminho, parada estratégica na Praia do Farol para hidratação. Água de coco, descanso rápido e de volta para a estrada.
O visual compensa o esforço. Falésias, praias extensas e um mar de azul intenso acompanham praticamente todo o trajeto. Passamos pelo município de Prado até chegar ao destino do dia: Cumuruxatiba, já em território baiano.
Caravelas: turismo fora de temporada
Antes da saída, Caravelas mostrou um outro lado. A cidade tem a economia fortemente ligada ao turismo, com destaque para os passeios de barco para Abrolhos. Mas, fora de temporada, o cenário muda completamente. Pouco movimento, porto quase vazio e atividades reduzidas.
Ainda assim, ficam alguns registros curiosos. Uma frase em uma escola municipal chama atenção:
“A palavra convence, o exemplo arrasta.”
A cidade também guarda história, com construções antigas, incluindo uma igreja do século XVI ligada à passagem do Padre Anchieta.
Na parte gastronômica, o almoço foi em um restaurante com nome inspirado na baleia jubarte. E um detalhe cultural curioso: mesmo já longe do Rio de Janeiro, a presença de camisas do Flamengo continua forte, inclusive em nomes de estabelecimentos locais.
18 de maio: de Cumuruxatiba a Caraíva — um dos trechos mais difíceis
O segundo dia trouxe um dos maiores desafios da viagem. Foram 48 km entre Cumuruxatiba e Caraíva, mas com nível de dificuldade que fez o percurso parecer muito maior.
A chuva durante a madrugada mudou completamente as condições do terreno. Estrada de terra molhada vira sabão. Subidas simples se tornam obstáculos reais, com a roda traseira patinando e sem aderência.
Além do barro, a areia pesada completou o cenário. Muito esforço para avançar pouco.
Praia do Cahy e o contraste do caminho
Logo no início, após cerca de 7 km, chegamos à Barra do Cahy, considerada por muitos como a primeira praia do Brasil, associada à chegada de Cabral.
Uma praia extensa, praticamente deserta. O tipo de lugar que muda o ritmo. Parada inevitável para um mergulho e para absorver o cenário.
O mar e o céu criam um horizonte limpo, direto, difícil de descrever sem estar ali.
Corumbau e as travessias
Na sequência, passamos pela Praia de Corumbau, que já oferece melhor estrutura para visitantes. Foi o ponto de pausa para recuperação antes de seguir viagem.
Para chegar a Caraíva, ainda enfrentamos dois obstáculos naturais:
- Rio Cahy: travessia feita com as bicicletas nas costas
- Rio Corumbau: com a maré alta, foi necessário utilizar barco, operado por indígenas da etnia Pataxó
Depois disso, ainda restavam cerca de 10 km pedalando dentro de área indígena até o destino final.
Caraíva: areia, isolamento e turismo
A chegada em Caraíva marca uma mudança total de ambiente.
É um vilarejo com poucas construções, muitas pousadas e restaurantes, e uma característica marcante: não circulam carros, motos ou bicicletas nas ruas.
O motivo é simples. As ruas são de areia extremamente fofa, o que torna qualquer deslocamento com rodas praticamente inviável. O transporte de mercadorias é feito por carroças com tração animal.
A economia local gira exclusivamente em torno do turismo, o que impacta diretamente nos preços, geralmente acima da média.
O que esses dois dias mostram
Se o primeiro dia foi de contemplação e constância, o segundo foi de teste físico e mental.
Terreno pesado, decisões rápidas e adaptação constante. Essa combinação define bem o trecho entre Cumuruxatiba e Caraíva.
A Costa das Baleias entrega paisagens.
Mas também cobra preparo.






