Do litoral sul ao sertão do vento: minha travessia de bike pelo Rio Grande do Norte
Em abril de 2026, segui viagem pelo litoral do Rio Grande do Norte carregando o que mais gosto no cicloturismo: liberdade, vento no rosto e aquela sensação constante de descoberta. Cada cidade trouxe uma paisagem diferente, um ritmo diferente e histórias que ficaram marcadas na memória.
Depois de chegar à Barra do Cunhaú, meu plano era seguir direto até Ponta Negra. Mas a estrada resolveu me ensinar uma das principais regras de quem viaja de bike: respeitar o tempo da natureza.
Barra do Cunhaú
23 de abril de 2026
Sexta perna de Barra de Cunhaú à Ponta Negra, 60 km
A Barra do Cunhaú é aquele tipo de lugar que desacelera qualquer pessoa. Localizada no município de Canguaretama, no litoral sul potiguar, a vila mistura rio, mangue e mar em um cenário impressionante. Passei pelo encontro do Rio Cunhaú com o oceano, observando as águas calmas cercadas pelos coqueirais. O clima era perfeito para recuperar as energias antes de seguir viagem.
A região também é conhecida pelos passeios de barco pelos manguezais e pelas águas tranquilas que atraem quem busca sossego longe das praias mais movimentadas. Mas naquele dia, a chuva apertou. O céu fechou completamente e decidi não insistir no pedal até Ponta Negra. Em viagens longas de bicicleta, aprender a parar também faz parte da aventura. Aproveitei para descansar, ouvir o som da chuva caindo sobre os coqueiros e reorganizar a rota para o dia seguinte.
Dia 24, Sem perna, só pé, pé d’água, chuva o dia todo. 0 km.
Ponta Negra
25 de abril de 2026
Sétima perna, Ponta Negra a Touros, 116 km, nosso record, dia com mais km rodadas.

No dia seguinte depois de chegar, com o tempo mais firme, finalmente realizei o pedal em Ponta Negra. E que pedal. Pedalar vendo o mar ao lado sempre traz uma energia diferente. O vento vinha forte do litoral, batendo no rosto o tempo inteiro, enquanto a paisagem alternava entre falésias, praias urbanas e trechos mais tranquilos da estrada. Chegar à Praia de Ponta Negra, em Natal, foi especial. Um dos cartões-postais mais famosos do Nordeste brasileiro, o lugar impressiona logo de cara pelo Morro do Careca, a enorme duna cercada pela vegetação que domina o horizonte da praia.
A orla estava movimentada, cheia de bares, restaurantes e turistas caminhando pela areia. Mesmo sendo uma praia urbana, Ponta Negra consegue manter aquele clima agradável de litoral nordestino. Caminhei pela beira do mar observando os jangadeiros, os vendedores locais e o pôr do sol refletindo nas águas. Depois de tantos quilômetros pedalando, parar ali e sentir a maresia trouxe aquela sensação clássica do cicloturismo: a de estar exatamente onde eu deveria estar.
Touros
26 de abril de 2026
Oitava perna, Touros à São Miguel do Gostoso, 35 km, Domingão Show, tiro rápido.

No dia 26, segui viagem até Touros, conhecida como a cidade onde “o vento faz a curva”. E faz mesmo. O pedal naquele trecho foi intenso. O vento lateral exigia atenção constante, mas ao mesmo tempo criava uma sensação incrível de liberdade. A estrada parecia infinita, cercada por dunas, vegetação rasteira e o azul do litoral potiguar. Touros abriga o famoso Farol do Calcanhar, um dos maiores faróis da América Latina e um dos pontos turísticos mais importantes da região.
Ver aquela estrutura enorme surgindo no horizonte depois de horas pedalando foi uma experiência marcante. A cidade também tem praias extensas, tranquilas e pouco exploradas, perfeitas para quem gosta de destinos mais autênticos. O mar forte, os barcos de pesca e o clima simples do lugar deixavam tudo ainda mais bonito.
São Miguel do Gostoso
27 de abril de 2026
Nona perna, São Miguel do gostoso a Jandaíra, 102 km.

De Touros, segui para São Miguel do Gostoso. Poucos lugares conseguem transmitir uma sensação tão forte de paz quanto Gostoso. A cidade tem um ritmo próprio. Tudo parece acontecer sem pressa. Pedalei por ruas de areia, cercadas por pousadas charmosas, restaurantes pequenos e árvores balançando com o vento constante da região. As praias são enormes, abertas e praticamente sem prédios, o que deixa a paisagem ainda mais impressionante.
A Praia da Xêpa foi um dos pontos que mais me marcaram. O contraste do mar azul com os coqueiros e as jangadas coloridas criava um cenário típico do Nordeste que parecia pintura. São Miguel do Gostoso também é conhecida mundialmente pelos esportes à vela, como kitesurf e windsurf. O vento forte domina a região quase o ano inteiro, e isso transforma completamente a experiência de quem passa por ali — principalmente pedalando. Foi impossível não sentir aquela mistura de cansaço e felicidade que só uma longa viagem de bicicleta consegue proporcionar.
Jandaíra
28 de abril de 2026
Décima perna, Jandaíra à Porto do Mangue, 65 KM. Rota do Sal, Sal para todo lado.

No dia seguinte, continuei até Jandaíra. A mudança de paisagem começou a aparecer aos poucos. O litoral foi dando espaço para cenários mais secos, típicos da transição para o sertão potiguar. O pedal ganhou um clima ainda mais aventureiro.
Estradas mais vazias, calor intenso e o vento constante acompanhando cada quilômetro. Jandaíra é conhecida pela produção de mel e pelas áreas de natureza preservada. O município também guarda paisagens simples, mas extremamente bonitas, com vegetação típica da caatinga e pequenas comunidades espalhadas pela região.

Viajar de bicicleta por esses lugares faz a gente perceber detalhes que normalmente passam despercebidos de carro. O cheiro da terra quente, o silêncio das estradas e o contato direto com as pessoas locais transformam completamente a experiência.
Porto do Mangue —
chegada em 29 de abril de 2026
Décima primeira perna, Porto do Mangue à Tibau, 85 km.

No dia 29 de abril, cheguei a Porto do Mangue. E talvez tenha sido uma das chegadas mais impactantes da viagem até aquele momento. A cidade reúne alguns dos cenários mais impressionantes do litoral potiguar: dunas enormes, salinas gigantescas, praias praticamente desertas e um visual quase cinematográfico. O encontro das montanhas de sal branco com o céu azul criava uma paisagem surreal. Pedalar naquele cenário, sentindo o vento forte vindo do oceano e vendo as dunas surgirem pelo caminho, foi inesquecível.
A Praia do Rosado, uma das mais famosas da região, impressiona pela coloração diferente das falésias e pelo isolamento. O lugar transmite uma sensação rara de liberdade absoluta. Depois de tantos dias na estrada, chegar ali trouxe aquela certeza que todo cicloturista conhece bem: não importa o quanto o corpo esteja cansado, a alma continua querendo seguir viagem.
Enquanto o sol começava a cair em Porto do Mangue, fiquei olhando o horizonte e pensando em tudo que aquela travessia pelo Rio Grande do Norte tinha me proporcionado. Foram dias de muito vento na cara, chuva inesperada, praias paradisíacas, estradas vazias e encontros que só o cicloturismo é capaz de proporcionar. Mas a viagem ainda estava longe de acabar. E posso adiantar uma coisa: os próximos dias reservavam algumas das paisagens mais impressionantes de toda a viagem.






